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Critérios de biodegradabilidade e riscos de subprodutos em tensoativos

As mudanças climáticas e o aquecimento global são fenômenos que testemunhamos de forma cada vez mais frequente, com inúmeras notícias de locais sendo afetados por enchentes devastadoras, nevascas sem precedentes ou secas esturricantes. Ou seja, um fenômeno cíclico natural altamente potencializado pela ação humana vem exercendo impactos significativos sobre as condições econômicas e sociais em uma escala global.

Esta situação não é nova, mas vem se tornando mais e mais perceptível com o tempo, e, ainda assim, uma grande quantidade de indivíduos busca negar ou dificultar práticas que podem amenizar tal fenômeno. Na busca por soluções a nível mundial, em 1997 um acordo internacional, o Protocolo de Kyoto, foi firmado por 84 países buscando a redução da emissão de gases do efeito estufa. Quase uma década depois, em 2015, o Acordo de Paris foi assinado com uma finalidade similar, incluindo mais países, além dos desenvolvidos, que já eram signatários do Protocolo de Kyoto.

Apesar da relevância desses acordos, os resultados ainda são limitados. Fatores como mudanças de posicionamento político e interesses econômicos, especialmente em setores como o de combustíveis fósseis, acabam dificultando avanços mais consistentes na agenda ambiental.

Apesar deste cenário nada animador, nas últimas décadas também se observou uma busca por um desenvolvimento mais sustentável por parte de alguns setores da indústria. Nessa busca por sustentabilidade, o desenvolvimento de produtos e substâncias biodegradáveis foi algo que se destacou.

O significa ser “biodegradável”?

O termo biodegradável é extremamente difundido e certamente você já se deparou com ele por aí, seja em uma Ficha com Dados de Segurança (FDS) de algum produto, em materiais publicitários ou na conversa com fornecedores de produtos. Mas, qual seria o verdadeiro significado de rotular algo como biodegradável? E será que o comércio de itens biodegradáveis efetivamente contribui para um melhor cuidado do meio ambiente?

De uma forma simples e direta, quando se diz que um material é biodegradável, estamos afirmando que este material sofrerá ação de decomposição de microrganismos, ou seja, uma substância biodegradável efetivamente serve como substrato para microrganismos, de modo que ela será consumida por outros seres vivos, sendo transformada em energia para os mesmos e retornando para o meio ambiente na forma de moléculas mais simples e, quase sempre, muito menos tóxicas do que a substância original.

A partir dessa definição, é possível inferir que o desenvolvimento de produtos biodegradáveis tende a reduzir o tempo de permanência dessas substâncias no ambiente, diminuindo sua janela de potencial impacto.

Até aqui, apresentamos conceitos gerais. Agora, vamos direcionar a discussão para um segmento específico e relevante: o de substâncias tensoativas.

Quando podemos afirmar que um tensoativo é biodegradável?

De acordo com a norma ABNT NBR 14725:2023, que classifica substâncias químicas no Brasil, uma das formas mais práticas de se determinar uma substância como biodegradável é através de ensaios de varredura. Vale destacar que resultados obtidos exclusivamente em condições anaeróbias (ausência de oxigênio) não são suficientes para essa classificação, uma vez que tais condições são menos representativas do ambiente real. Mesmo corpos d’água, por exemplo, são geralmente considerados ambientes aeróbios, devido à presença de oxigênio dissolvido.

Além disso, a norma não trata apenas de biodegradabilidade, mas também do conceito de degradação rápida. O ambiente é um sistema complexo, onde diferentes fatores atuam simultaneamente na degradação das substâncias. Além da ação de microrganismos (degradação biótica), fatores como luz solar, pH e temperatura também promovem transformações químicas, caracterizando a chamada degradação abiótica.

Quando há uma ação combinada de degradação biótica e abiótica que resulta na degradação de pelo menos 70% da substância em até 28 dias em ambiente aquático, considera-se que essa substância é rapidamente degradável.

Cabe um grande ponto de atenção aqui no que diz respeito a normas nacionais e biodegradabilidade: a Anvisa exige que todos os tensoativos aniônicos utilizados no Brasil sejam biodegradáveis. Apesar desta exigência, não é necessário realizar testes de biodegradabilidade em todos os tensoativos aniônicos, pois a norma atual exige que apenas os tensoativos aniônicos de nova geração que não apresentem estudos amplamente divulgados sejam submetidos a avaliação de biodegradabilidade. Diante disso, surge uma questão importante:

Produtos biodegradáveis ou rapidamente degradáveis são necessariamente mais seguros para o meio ambiente?

A resposta para a pergunta acima, infelizmente, é não. No meio ambiente não é possível realizar o isolamento de variáveis, é um ambiente no qual teremos a ação biótica e abiótica atuando de forma simultânea, e nem sempre será fácil de determinar qual das ações será a predominante. Esse cenário onde ambos os tipos de degradação podem ocorrer simultaneamente, a quantidade de reações e transformações que as substâncias podem sofrer aumenta consideravelmente, o que faz com que seja possível que algumas substâncias mais tóxicas sejam produzidas também.

Quando a degradação gera mais impacto

Um exemplo clássico desse comportamento é o nonilfenol etoxilado. Durante seu processo de degradação, podem ser formados nonilfenóis, que são compostos significativamente mais tóxicos. Esses compostos apresentam, inclusive, toxicidade reprodutiva e são classificados como potenciais desreguladores endócrinos, podendo afetar tanto seres humanos quanto organismos aquáticos.

Os impactos ambientais associados incluem feminização de organismos, redução da fertilidade masculina e diminuição da taxa de sobrevivência de filhotes, mesmo em concentrações extremamente baixas, inferiores a 10 µg/L (0,00001 g/L).

O que a indústria precisa considerar a partir disso

A aposta em produtos biodegradáveis é uma ótima saída para lidarmos com as sérias questões ambientais que enfrentamos atualmente e que enfrentaremos no futuro.

No entanto, a confiança cega de que produtos biodegradáveis ou rapidamente degradáveis são isentos de produzir quaisquer problemas ecotoxicológicos deve ser tratada com cuidado: deve-se avaliar cautelosamente as estruturas das substâncias em questão e todas as formas de degradação que elas podem sofrer. É necessário avaliar:

  • A estrutura química da substância
  • Os caminhos de degradação
  • Os subprodutos formados
  • Os impactos ecotoxicológicos

Na Macler, acreditamos que o desenvolvimento de soluções químicas mais sustentáveis exige profundidade técnica, responsabilidade e visão de longo prazo. Mais do que atender critérios regulatórios, o compromisso está em apoiar nossos clientes na construção de formulações que conciliem desempenho, segurança e menor impacto ambiental em todas as etapas do seu ciclo.

O verdadeiro desafio da indústria está em desenvolver substâncias que sejam seguras não apenas em sua forma original, mas também em todas as etapas de sua transformação no ambiente.

Renam Luis AcorsiDoutor em Eng. Química e Analista de P&D na Macler
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Tags: biodegradabilidade
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